kitschnet - mini-pratos ao balcão


20.5.18

pequenas alegrias
as framboesas estavam maduras
há muito que não me doem os dentes
já tinha o óleo que me recomendaram para a pele
a brisa morna que entra pela janela
consegui tirar as nódoas do vestido
a gaivota que cruza, perfeita, o céu muito azul

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15.5.18

Esplanada à estalada

«Ai eu agora ando a ver o One Strange Rock, um programa espectacular. É sobre o planeta, ficas a perceber montes de coisas, está tão bem explicado. A dada altura mostraram um pôr-do-sol, mas não era só um pôr-do-sol. É mesmo muito bom. Vê. É narrado pelo Will Smith. Um preto.»

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10.5.18

Pombomínio


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7.5.18

Arrepio

Muito mais do que felizes, as pessoas querem ser invejadas.

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2.5.18

Notas da biblioteca II

A caminho da biblioteca, apressada, mastigo um pastel de nata. Cruzo-me com um cidadão que fuma à porta do seu local de trabalho e fala ao telefone. No segundo em que passo à sua frente, ele diz a alguém do outro lado da linha, a propósito da conversa de ambos: «um pastelinho de nata». Já na biblioteca, traduzo alguns parágrafos sobre bandeiras nacionais e locais. Quando levanto os olhos, mesmo à minha frente, do outro lado do vidro, seis estandartes agitam os seus panos: Portugal, União Europeia, Lisboa e mais três. Minutos depois, no preciso momento em que um antigo professor universitário faz like numa fotografia que partilho, os meus olhos recaem sobre a lombada do livro que ajudei a organizar com ele.

Pela terceira vez consecutiva, tenho à minha frente estudantes de medicina debruçados sobre diagramas do cérebro (o corpo caloso tem curvas muito apelativas). Por mais maçãs que coma (esta biblioteca é permissiva), não há meio de afugentar os médicos.

A caminho da casa-de-banho, passo por uma estante que exibe um livro intitulado «Matemática Concreta». Lembro-me logo da minha professora de Filosofia do secundário, que dizia: «Se a matemática é tão concreta assim, porque é que nunca vemos um dois e um quatro a passear de braço dado?»


A moça ao meu lado está a preparar-se para estudar há mais de meia hora. Arruma os papéis, tira uma fotografia ao penso que tem na mão, troca mensagens com alguém, bebe água, reordena os papéis, desembrulha um rebuçado, levanta-se, sai da sala [respiro de alívio], e volta, volta a teclar no tablet, agora tecla no telemóvel, tira os auscultadores da mochila, escreve duas palavras, rói a unha, debruça-se sobre os papéis, volta a pegar no telemóvel e agora tecla no tablet, hamster frenético. Anseio por um dardo tranquilizador.

O rapaz à minha frente, pálido e triste, tem colado no seu computador um autocolante de uma famosa marca de artigos de surf.

A moça com excesso de peso vai à varanda falar ao telemóvel. É muito bonita, ainda que se vista sem gosto. O seu grande azar em 2018 é ter a gordura mal distribuída. Se em vez de para as ancas e para as costas lhe tivesse fugido para o rabo, seria a rainha desta merda toda.


Depois de o rapaz que estava ao meu lado - tossiqueiro, abanão, distraído com vídeos de rap holandês - se ter ido embora, substitui-o um outro, vestido como os betos de há vinte anos, sapato de vela sem meias, camisa azul, calças beges, cabelo curto, unhas cortadas de forma sensata. Tirando o seu perfume excessivamente intenso, excessivamente másculo, a presença é uma melhoria face à anterior porque se assoa discretamente em vez de fungar. Está, como outro na mesma sala, muito concentrado em slides sobre gestão de empresas. Tem os seus papéis organizados, três canetas idênticas (uma é lapiseira) sobre a mesa, desenha setas e chavetas com rigor. Parece-me o tipo de pessoa que se masturba com imensa força. Há-de chegar longe na tal empresa. Se disfarçar melhor do que agora o facto de ser gay. Abençoado seja.

Pelo terceiro dia consecutivo, cruzo-me com um tipo de olhar amalucado - o leitor sabe, aqueles olhos muito arregalados e que nunca pestanejam - que me fita sem qualquer pudor, como se eu não pudesse vê-lo enquanto o faz, a verdadeira marca do maluco. Felizmente, a sala está cheia e tem de ser ir embora. Por instantes, passa-me pela ideia arregalar-lhe eu muito os olhos, só para o mandar calar. Seria um momento aterrador, e de que mais ninguém se aperceberia, o que só o tornaria mais aterrador. Mas o tipo ainda se apaixonaria por mim e a experiência já me disse que os malucos adoram atenção, tome ela que forma tomar.

Na fila para a casa-de-banho, a das senhoras fica livre. Um homem espera pela vez à minha frente e convido-o a usar o cubículo. Recusa com um riso muito nervoso, como se eu lhe tivesse oferecido um comprimido esquisito. Gostaria de lhe explicar que não acredito na segregação dos WC, que a sua vontade tem os mesmos direitos da minha, mas estou aflita e não tenho tempo a perder com quem já fugiu para dentro do seu telemóvel.

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1.5.18

Operári-os
Univos!

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12.4.18

Arte povera
As pirâmides de copos e garrafas, as cornucópias de fruta e flores artificiais nas montras das pastelarias. Pequenas sobras de arte.

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Cidadão de cartão
O louco à minha frente na fila incomoda e surpreende toda a gente com a sua diatribe contra bandidos, corrupção, poderes instituídos, banco alimentar, banco central alemão, paraísos fiscais (fala nas ilhas Fiji com muita convicção), crimes contra «o infantil, o meu filho, prostituto do governo português», criminosos. Não posso pedir-lhe que se cale. É a única pessoa com a sensatez de se zangar devidamente com o mundo. Haja alguém que nos dê coragem. Precisamos de bons exemplos.


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10.4.18

Pequenas bondades

Haver quase sempre alguém que espeta um pau no buraco no passeio para que outros não tropecem.


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9.4.18

Notas da biblioteca

Como um jogador de slot machines no casino, também eu tenho uma mesa preferida para a qual corro assim que abrem as portas.

A moça estudante, à minha frente, em vez de escrever apaga, apaga. Abana a mesa, abana-se a ela, abana-me a mim e às nossas garrafas de água, dançamos todos ao ritmo dos seus erros.

A mesma rapariga faz uma pausa e vai ao instagram. Com o dedo, desce, desce, desce a grande velocidade, dando a ideia de estar a enxotar moscas com a mão. No fundo, está.

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7.4.18

Imagem e semelhança


Maçã de Adão, tendão de Aquiles, cabelo de Sansão. O homem, essa colecção de fracassos.

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26.3.18

Recursos humanos

Falamos muito, e com muita razão, da sobre-exploração dos recursos naturais. A Amazónia é uma vergonha, o petróleo outra, o pescado, a mineração, o minguante ar puro. Estamos em autofagia. Mas os recursos visuais estão igualmente a esgotar-se. Dizemos, constatação banal, que vivemos na era da imagem, mas o fenómeno é muito mais do que parece. Não há recanto, ruína, paisagem e tribo que não tenhamos capturado. Os bancos de imagens deglutem o mundo, os mundos, até os mais absurdos, repetitivos e sem centelha de graça. O Hubble e irmãos varrem o universo de lente na mão, metade dos seres humanos à face do planeta tem uma máquina amadora. Tirando o fotojornalismo, de onde pode vir novidade (embora a História se repita), e a arte (que também se debate com questões de finitude), a imaginação vai sendo fotografada até ao osso, exaustão por catalogação, sobre-exposição aos raios-X. Morremos na era da imagem, assim é que é.

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19.3.18

19 de Março

Feliz dia do Apesar De!

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13.3.18

Alívio

Num estranho fenómeno, à Praça do Município acorreram um sem-número de bandos de pombos. As aves mantiveram-se na praça, cobrindo o chão, a estátua ao centro e todos os beirais. Ali concentrados, os pombos formavam uma densa mancha, escura e baça, que não partia mas que também não parava quieta. Uma vez contados, concluiu-se serem 50 mil animais, o mesmo número de assentos do Estádio José de Alvalade. Imaginar um pombo sentado em cada cadeira do estádio é uma visão infernal. A natureza não é verdadeiramente caótica, mas ainda bem que não é assim tão organizada.

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12.3.18

Hei-de incluir isto num discurso que um dia faça
O amor, a arte, as hemorróidas, tudo igual: não se deve forçar.

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Bom rapaz

Markl, os últimos dez anos de carreira à conta dos primeiros dez anos de vida.

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20.2.18

Os queixumes do sr. Adolfo

Anda o lindo blogue 50 kg a publicar passagens de Miguel Torga. Ao contrário dos de Wenceslau de Moraes já publicados no mesmo blogue, os desabafos do sr. Adolfo mostram-nos um choraminguinhas que quase mendiga ser lido e que ainda troça das garotas menos bonitas que ninguém chama para dançar. Saiba o excelso excritor que há mais graça em qualquer moça feia do que nessas linhas. 

É assim que, à catanada, ando pela selva dos livros adentro. Embora tenha gostado dos seus Bichos,  há muitos anos, pu-lo agora definitivamente na prateleira. Com tanto para ler ia agora oferecer-lhe o meu tempo? Os arabescos literários não chegam. Ser-se bom é ser-se bom. Abaixo os ídolos falsos. Sobretudo se choramingam.

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19.2.18

Correio da manha digest

Mulher de futebolista em produção ousada forçada a violar homicida com balas no pénis por pároco pedófilo em Guimarães após autoridades apreenderem droga usada em orgia com estrelas porno, autarcas e vizinhos. Mãe da vítima foi transportada de urgência para o tribunal, onde espancou o juiz com caçadeira de canos serrados enquanto o ex-marido e a amante a assaltavam. Famosos marcaram presença e confessaram estar a atravessar o melhor momento das suas vidas. 

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A condição humana da santidade


Pormenor do Livro de Horas de Louis de Laval, França, ca. 1480.

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7.2.18

Irritanto
A corridinha dos actores quando vêm agradecer pela segunda vez.
E quando levantam a mão para reencaminhar o aplauso à restante equipa, num aréops de fraco acrobata? É sair-se da peça à força, ser-se expulso a empurrões da bolha, é o licor demasiado doce engolido por cortesia depois de um jantar agradável no nepalês. Amargo de boca de cena.

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2.2.18

Limites

O Público diz-me: atingiu o seu limite. Só posso concordar.

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1.2.18

Mestria

«O pedantismo de Boston que Howard associava a este tipo de eventos não podia sobreviver muito bem na massa de corpos quentes e nas crepitações dos [...] e tudo isto era positivo.»

Zadie Smith, Uma Questão de Beleza, p. 85


É Howard que acha, não o narrador, mas Howard não tem de abrir a boca. Todo o livro, até aqui, é sobre o não-dito. O narrador, incorpóreo, diz tudo, mas também sem dizer nada.


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Costatação

As ruas estão cheias de fotógrafos.
 Pai, Janeiro de 2018


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Queda-livro
No lançamento do livro da sensacional Fernanda Torres, eu disse a alguém que gosto muito da Fernanda Ribeiro. 

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Saudades

Algum tempo depois, apercebi-me de que gosto de ver um certo programa de televisão em boa parte porque a apresentadora se parece com a minha psicanalista. {Não escrevo ex- porque ela me faz sempre muita companhia.}

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26.1.18

Avelã e grão-de-bico
Até Deus fica sem imaginação, às vezes.

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Magic


Any sufficiently advanced technology is indistinguishable from magic.
Arthur C. Clarke

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Rádio pirata

Warren Ellis disse o que muitos vimos sentindo. Menos ruído, mais nitidez, quem viu e ouviu viu e ouviu, ninguém tem de comprar nada.

Newsletters, podcasts, blogues, tudo com RSS. O futuro pode ser o passado.

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23.1.18

Mãos de criança
Mais do que o tamanho ou a sujidade, as cutículas rasgadas, sem querer saber.

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Espera
- A paciência é uma virtude.
- Não tenho tempo para virtudes.

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21.1.18

Pesquisa

Receitas com nabo.

Há domingos em que não se passa nada na minha vida.

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18.1.18

Estrangeirismos
O cão albanês faz ham ham

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Portugal
Um país que não fia porque não confia. Sobretudo em si próprio.

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Sim,
proibido fotografar. Mas e proibido descrever minuciosamente?


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Stripoema

Primavela
Varão
Outrono
Inveja

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9.1.18

Igualmente assustador

O homem é o bolo do homem.

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27.12.17

Imobiliária blues

Carvoeira, Silveira, São Pedro da Cadeira
Ventosa, Venteira, Sobral da Abelheira
Até duzentos mil euros, tens Torres Vedras aos pés

Moradia V5, prestação com quintal
Sem entrada nada feito, é Runa ou Turcifal
Tanto faz agora ou depois 
Tecto ou farmácia perto
Nunca terás os dois 

Assim como assim,
Espero.
Ainda prefiro o sopé da ponte
A viver em Matacães


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26 de Dezembro

Segurança em recepção de empresa vê vídeos de culturismo, menina chinesa de seis anos e laço na cabeça entra em casa com duas enormes metralhadoras de plástico, uma em cada mão.

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21.12.17

Luas


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Fauna

Entre quatro paredes, estamos quase sempre esquecidos dos animais do mundo. Podemos ter um cão aos pés, um gato no colo, mas nunca pensamos no elefante indiano com uma dor de dentes, no beija-flor desorientado na Amazónia, na girafa que acabou de nascer, no aligátor com fome no pântano americano, no urso polar que se afoga, no insecto que morre e que leva a espécie 
consigo. Também nunca pensamos nas espécies mais próximas, a barata, a mosca, o rato, a não ser que nos incomodem, e menos ainda nas indiferentes, como o peixe de rio que não comemos, os vinte mil pardais por quilómetro cúbico de céu. De vez em quando penso no burro que carrega, no boi que puxa, na vaca que pasta entre ordenhas. Biólogos e pastores pensarão nos seus exemplares, claro. Mas dou por mim a pensar neles todos sem razão. Só porque coexistimos. Se calhar rezar é isto.

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20.12.17

Portanto

«Mal sei estrelar um ovo», não sem um certo orgulho, «mas os melhores chefs do mundo são homens».

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19.12.17

2018, espero



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13.12.17

Frentiverso



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Oh my Gawd you can't say that, that's so racist


No metro, vejo uma rapariga da Europa de Leste, imediatamente identificável pela fisionomia do rosto. Uma Natalya que, encorpada e de cabelo curto, seria um Yuri quase sem ser preciso mudar mais nada. E olhando para ela ocorre-me que já vi tantas e tantos tão parecidos que parecem clonados e como algures lá para trás houve um homem muito poderoso, ou tido por muito bonito, rico ou forte, talvez um grande sedutor ou divertido, embora isso seja menos provável, que se fartou de semear a sua semente fortíssima com grande sucesso. Quem terá sido? E, no metro, em 2017, terá a sua descendente mais alguma marca da sua ascendência além das visíveis?

Uma pessoa tem de passar o tempo de alguma maneira.

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6.12.17

Estéticas
Os chiques não sentem frio, de vestido leve ou tornozelo à mostra, nunca lhes doem os pés, do alto das agulhas de dez centímetros, nunca sentem fome, nada os aflige, nem mesmo as contas. Que patetas.

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4.12.17

Fifty fifty

Horas à espera que aquele e-mail chegue, horas a engonhar escrever aquele e-mail.

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Figuras de estilo

Em frente ao Liceu Camões, no Saldanha, um rapaz magricela, branquela, classe média-alta, borbulhento e de lunetas diz aos amigos: 

Escuta só, mô, vô comprá um capacêtt, mô, não taj bem a vê, mô, duzentos paus, iá, tâzavê, mén, eu disse quera buéda caro, iá?

Era curiosamente parecido com um que, tempos antes, no mesmo local, a discutir com um colega negro, a primeira coisa que lhe chamou foi pretdámerda.

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A mulher do escritor

«Digo-o a sério: parece-me justo que a mulher do escritor possua de alguma forma o escritor porque, entre ambos, construíram um animal simbiótico. O que não significa que todas as mulheres que pastoreiam um literato sejam pessoas maravilhosas; de facto, algumas dessas mulheres superlativas são senhoras pavorosas. Mas nunca é menos pavoroso o cavalheiro que parasitam, que se aproveita do facto e o fomenta.» 
Rosa Montero, A Louca da Casa

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2.12.17

Ídolos
O que décadas de concursos de talentos na televisão nos mostram é que não há falta de gente com boa voz para cantar. Aliás, é algo absolutamente banal. De crianças de quatro anos a velhotas, milhares conseguem-no. 
A Fashion TV, de tanto entupir ojolhos com modelos, também revela a sua linha de montagem, em plena luz do dia. Leve cem pelo preço de uma, mulheres bonitas é o que não falta, há sempre mais de onde estas vieram, aliás até me estão aqui a ocupar espaço, fique com quantas quiser, que nem damos pela diferença, tal a abundância e a parecença entre elas.

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Sexxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

No Cinebolso: Sexo Escaldante, Sexo Bombástico, Sexo Explosivo, Sexo Louco, Sexo Mais Sexo, Sexo Sem Fim, Sexo Apocalíptico. Há limites. O número de orifícios, posições, estímulos, parceiros a que dar atenção e assim por diante são finitos. Vamos lá acalmar um bocado.

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1.12.17

Método infalível para fazer uma coisa

Arranjar outra mais importante para fazer.

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Robotimismo



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29.11.17

Boas intenções
As velhotas do meu bairro alimentam-se mal, alimentam rancores, recebem ou mendigam pensões de alimentos, regateiam e pedem fiado na mercearia. Nenhuma delas tem tão bom aspecto como os gatos a que dão de comer, muito gordos, quase rebolam, de tão cheios nem vão aos restos do salmão.

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28.11.17

Estado das loisas

Lemos os jornais para não acreditarmos neles.

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26.11.17

Dodot . Lindor . Dior

A Cara, de 25 anos,


é a nova cara de um anti-rugas.

Nada apaga os sinais dos tempos.

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24.11.17

Pódios

A nossa bandeira é muito feia, mas a do Zimbábue tem um pombo sentado numa fatia de bolo.

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22.11.17

Milagre!

Ela chupou-lhe os tomates que ele não tinha.



{A linguagem neste blogue está cada vez mais rasa. Desculpe, mãe. É tudo por amor à arte.}

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2007-2017, descubra as deferências
Os condutores param mais vezes para deixar passar o peão, e fazem-no de bom grado. É outra oportunidade para actualizarem o seu estado.

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17.11.17

Depois compramos este, aquele, ou outro pó miraculoso, que vai deixar as vizinhas a roerem-se de inveja, frustradas, as pobres, com a sua roupa menos superbranca, menos maxibranca, com a sua roupa cujo branco parou, não vai todos os dias progressivamente aumentando, a caminho do infinitamente branco.
Maria Judite de Carvalho, O Homem no Arame

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16.11.17

Lojismos
Fechei o Facebook e vim espreitar o blogue. Uma rapariga tem de se distrair com qualquer coisa. Só me revejo aí em metade que para aqui vai. Mas o assinalável é a barra de links para outros blogues, com as suas barras de links. Está tudo deserto, fechado, já lá não mora ninguém. Ruínas digitais, centros comerciais falidos. Alguns deixaram os arquivos intactos, outros lamentam mas são só para visitantes com acesso autorizado. Em quase todos há estática onde havia imagens, letreiros do Photobucket onde dantes tínhamos conta. Voltei da guerra e a cidade está muda, talvez um eco ao longe, mas ninguém que eu conheça. Já não vou encontrar os outros, mas, aos poucos, vou-me reencontrando a mim, batendo às minhas portas, acendendo as luzes, neóns com problemas no arrancador, única cliente do meu peixe.

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16.7.14

Bombeiro
Às nove horas da manhã do dia 25 de Maio, Alfredo Sousa, bombeiro de profissão, entrou, fardado, na estação de correios da sua vila fazendo-se acompanhar de um cesto de vime pelo braço. Os funcionários estranharam a sua presença ali àquela hora, que não era a habitual, e a ausência de quaisquer cartas ou encomendas. Interiormente, uns acreditaram que estivessem no cesto e outros atribuíram o cesto a uma ida ao mercado, prosseguindo todos com os seus afazeres. Poucos segundos após a entrada do bombeiro Sousa, a cesta explodiu sem aviso, com estrondo e muito estrago, despedaçando-se ao mesmo tempo que o homem que a levava. Este acontecimento apanhou todos desprevenidos. Um utente que se encontrava no local ficou com queimaduras graves e os três funcionários da estação só saíram ilesos por dois deles estarem sentados atrás do balcão de pedra e um terceiro ter ido aos lavabos. Quando o fumo e a nuvem de fogo se dissiparam, foi possível ver pedaços do bombeiro suicida espalhados pelas instalações, que agora se assemelhavam a um talho em desalinho. Os restantes elementos da corporação acorreram ao local, socorreram o queimado e limparam o colega o melhor que puderam, entre lágrimas e espanto. A perícia concluiu que Alfredo Sousa levava consigo três granadas no cesto, já armadilhadas na altura da sua entrada na estação, mas não conseguiu apurar se trazia com ele mais alguma coisa, como um bilhete ou uma merenda, que pode ter sido pulverizada no processo. Os motivos deste seu gesto permanecem por deslindar, embora familiares e vizinhos garantam que ele era uma pessoa pacata, que gostava da sua canja e de lavar o carro aos fins-de-semana.

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13.6.14

Metaforismos à meia-noite
A vida também é pão e circo.

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12.6.14

Suspiro
Boa tarde, vai desejar a sua democracia pelo cu acima ou pela goela abaixo?

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11.6.14

Pico-conto

Não.



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10.6.14

Do insulto infantil

Lacrimijante


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9.6.14

Não se faz

Deus criou o homem. E permitiu que ele tivesse borbulhas na cabeça.

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30.5.14

Título provisório da minha autobiografia definitiva

  Dos zero aos sem em menos de nada



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23.5.14

Listas negras e brancas, zebra in progress

ramalhar badalhoco
langoroso mamocas
feroz beijoca
raciocinante chonar
genesíaco garina
loquaz mingau
dúctil oi/tchau
circunlóquio ninfeta
estultícia
amiúde
configurar
confabular
feérico
viço
compleição
inclemência
indisfarçado
enfunado
momentâneo
rebarbativo
epitáfio
bizantino
sofreguidão
afortunado
neófito

que deveriam existir: hesistir, quontinuar, sepois

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12.5.14

Leminski



Enquanto não me chega a poesia toda, tropeça-se num futuro velho amigo na livraria. Abre-se ao acaso e abro-me ao acaso.



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5.5.14

Babéis


À medida que a nossa intimidade relativamente a certos homens e mulheres cresce, tornamo-nos capazes de «ouvir» em leves alterações de ritmo, de velocidade da fala ou da entoação aquilo que eles nos estão na realidade a comunicar sem o dizerem explicitamente. […]
O ser humano realiza assim um acto de tradução, no sentido mais pleno da palavra, quando recebe uma mensagem verbal de outro ser humano. O tempo, a distância, a disparidade das perspectivas ou dos pontos de referência, tornam a tradução mais ou menos difícil. Quando a dificuldades ultrapassa um certo limiar, o processo deixa de ser reflexo para passar a ser consciente. A intimidade, em contrapartida, resultante quer do ódio quer do amor, assegura uma tradução confiante e quase imediata. Depois de, ano após ano, e de lugar em lugar, terem trocado entre si, como bolas de malabarista, os mesmos signos verbais, os casais errantes e inseparáveis de Beckett experimentam uma compressão mútua próxima da osmose. Na intimidade, a linguagem corrente exterior e o fundo da linguagem privada assumem uma relação de concordância crescente. A dimensão privada assume uma relação de concordância crescente. A dimensão privada penetra rapidamente as formas habituais do discurso público, sobrepondo-se-lhes. Documentam-no as notas que evocam o mundo animal ou da infância e que aparecem na linguagem dos adultos. Com o envelhecimento, o impulso de traduzir atenua-se e os pontos de referência tendem a ser cada vez mais de ordem interior. Os velhos ouvem menos e ouvem-se sobretudo a si próprios. O seu dicionário é cada vez mais o da esfera das recordações privadas.
Estou a tentar estabelecer um ponto elementar, mas decisivo: a tradução entre línguas é o tema principal deste livro, mas é também via de acesso a uma interrogação sobre a linguagem. A «tradução», devidamente compreendida, é um caso especial no arco de comunicação que cada acto de discurso bem sucedido descreve no interior de uma língua dada. Ao nível interlinguístico, a tradução levanta problemas de uma densidade por vezes visivelmente intratáveis; mas os meus problemas abundam, a um nível menos patente ou, regra geral, descurado, no interior de cada língua. O modelo «emissor-receptor» que qualquer processo semiológico e semântico representa é equivalente em termos ontológicos ao modelo «língua de partida-língua de chegada» que encontramos na teoria da tradução. Nos dois casos, encontramos «a meio caminho» uma actividade interpretativa de decifração. Quando duas ou mais línguas se articulam entre si, as barriras intermédias são evidentemente mais sensíveis e a busca de compressão torna-se mais reflexiva. Mas os «movimentos do espírito», para falarmos como dante, são rigorosamente análogos. E o mesmo se passa, como veremos, com as causas mais frequentes de mal-entendidos ou, o que vem a ser a mesma coisa, de fracasso da tradução. Em resumo: no interior de uma língua ou entre as línguas, a comunicação é tradução. Estudar a tradução é estudar a linguagem.
O facto de dezenas de milhares de línguas diferentes e mutuamente incompreensíveis terem sido ou serem faladas no nosso pequeno planeta é uma expressão manifesta do enigma profundo da singularidade humana, daquilo que faz com que dois seres humanos não possam ser totalmente idênticos do ponto de vista biogenético ou biossocial. O episódio de babel confirmou e desdobrou a tarefa interminável do tradutor, mas não a iniciou. Em termos lógicos, não havia qualquer garantia de que os seres humanos se compreendessem uns aos outros, de que os idiolectos se fundissem nessa forma de consenso parcial que são as formas de discurso partilhadas. Em termos de sobrevivência e de coerência social, esta fusão pode ter-se revelado uma vantagem adaptativa decisiva e precoce. Mas, como observava William James, «a selecção natural no que se refere à comunicação eficaz» poderá ter tido um preço considerável. Este terá incluído, não só o ideal, visado pelos poetas, de uma voz totalmente singular, da «adequação» única entre os meios expressivos de cada indivíduo e a sua imagem do mundo. Estou a pensar também no «murmúrio luminoso» dos códigos não verbais, nas formas sensoriais do olfacto, do gesto e do ouvido absoluto que os animais desenvolvem, e talvez ainda em certas modalidades de comunicação extra-sensorial […], que assim terão desaparecido do repertório da humanidade. A linguagem articulada teria sido, deste modo, um efeito da selecção natural, imensamente vantajoso, mas também redutor e conducente a um estreitamento parcial de um leque mais amplo de possibilidades semióticas. Uma vez «escolhida» essa via, a tradução tornava-se inevitável.
pp. 75-76

Como blocos erráticos, todas as línguas partilham uma miopia comum; nenhuma delas pode pronunciar toda a verdade de Deus ou dar aos que a falam a chave do sentido da existência. Os tradutores são homens que tacteiam, procurando-se, no interior de uma bruma geral. As guerras religiosas e a perseguição de supostas heresias são um resultado inevitável da babel das línguas: os homens deformam e pervertem as palavras uns dos outros. Mas há um caminho para sair das trevas: aquilo a que Böhme chama a «linguagem sensual» — a língua imediata e livre do instinto, a língua da Natureza e do homem natural […]. A gramática de Deus ressoa ainda nos ecos da natureza, e basta que a saibamos ouvir. p. 91

Os argumentos que afirmam a existência de uma ciência linguística extraem o seu conteúdo da suposição de um paralelismo com a lógica formal e com esses tipos de investigação psicológica e estatística experimental que são, de facto, susceptíveis de uma abordagem precisa e quantificável. Talvez a palavra humana não pertença a essa ordem de realidade. Os problemas postos pela ligação indissolúvel entre as modalidades de exame e o objecto examinado, a dinâmica de instabilidade que resulta da necessidade de usarmos a linguagem para estudar a linguagem, impossibilitam provavelmente uma sistematização rigorosa, para já não dizermos visando a exaustividade. Tal é, em termos de epistemologia, o dilema radical. Não se trata de uma questão de natureza convencional ou técnica. Há um autismo ontológico inevitável, um movimento que tem lugar no interior de um círculo de espelhos, sempre que reflectimos conscientemente sobre a linguagem, sempre que reflectimos a linguagem.
O pensamento reflexivo sobre a linguagem configura uma tentativa de sairmos da pele da nossa própria consciência, esse revestimento vital mais intimamente envolvente, mais estreitamente entretecido na nossa identidade que a pele do nosso corpo. pp. 140-141


George Steiner, em Depois de Babel, numa boa tradução de Miguel Serras Pereira para a Relógio d’Água .


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30.4.14

Percebi tudo mal

 

Estava à espera que o piano me caísse na cabeça, mas fui eu que caí em cima do piano.


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29.4.14

Claridade

(c) eduardo pigatto

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28.4.14

«Escuta o teu corpo»
O meu fala mal de mim nas minhas costas.


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27.4.14

Portubelo




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21.4.14

Começar. Devagar.
Começar a ler um livro, a ver um filme, a ouvir uma música. Há as artes súbitas como um quadro, um templo, ainda que se vejam devagar. E há as que se vão desenrolando gradualmente nesse devagar. Porque o devagar de um quadro ou de uma catedral vem vindo depois. E eu falo do começar. Estou suspenso do que se vai revelar, ver, ouvir no que não é senão anúncio como o começo do dia. Ter todas as hipóteses do possível, ser Deus antes de o ser, em nós ou no que em nós o vai ser. Nesse começar não acontece quase nada, para ser só expectativa de acontecer tudo. Lêem-se as primeiras palavras, os primeiros indícios do que vai acontecer em grandeza e plenitude. Ou olha-se uma criança e interrogamo-nos sobre o génio possível, ou o herói possível, mesmo o possível criminoso. A dimensão do possível é a do máximo que se pode imaginar, o não ser ainda é o ser já tudo a ser. Começar. O Deus que ergueu a mão. O absoluto do que o é no nosso imaginar. A suspensão de nós para a aparição que vai dar-se. O momento infinito da promessa. O absoluto do terrível e da ameaça. O instante da revelação que vai abrir-se. O encantamento e o medo. A anunciação do destino.

Vergílio Ferreira, Pensar, p. 94.

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11.4.14

spring's teen
mimavera, primavele

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10.4.14

Sublinhado da Silva

«[...] só há homem quando se faz o impossível; o possível todos os bichos fazem.»

Agostinho da dita


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9.4.14

cidadeles
um homem faz amor
com a cidade
ela engravida dele
que nasce nela
todas as manhãs

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31.3.14

Beyondcé
O título que ninguém usou para cronicar o concerto.

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Borlas com QREN
Gostava de fazer uma piada com isto, mas não consigo.

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